domingo, 19 de abril de 2015

O Mito Econômico do Valor da Educação



Quando empresários recomendaram a um "trainee"que trancasse a sua matrícula na universidade para estagiar com eles, pensei: "como esses capitalistas só pensam em dinheiro. Eles não pensam na pessoa, no capital intelectual que esse jovem representa para o país ?"

Acredito que um título com o termo "educação"afasta os capitalistas. Nenhum capitalista tem tempo para ler. Porque atividades educacionais são investimentos pessoais, de autoconhecimento e auto-evolução. Mas são improdutivas do ponto de vista econômico.

Como assim?

Isto mesmo! Educação e desenvolvimento econômico coexistem apenas, mas não estão relacionados! Pelo menos, as evidências estatísticas mundiais mostram isso. 

Sabe aquele discurso de que o governo precisa investir em educação para que  o Brasil seja um país desenvolvido economicamente? Pura balela! Discurso de político!

Desenvolvimento econômico e índices de instrução básica e universitária não têm correlação alguma! Chocante!

Como assim?

A Educação é muito importante do ponto de vista pessoal e social, mas não repercute nos índices de progresso econômico de um país! Estudar é um investimento para conquistar posições na hierarquia corporativa, mas impacta pouco no futuro econômico de um país!

Sei que parece contraintuitivo o que escrevo, mas é verdade.

Talvez por isso o governo fale em investir em cursos técnicos, porque eles tentam aumentar a produtividade e não o conhecimento formativo. Por isso,  o governo abriu as porteiras do acesso às universidades, porque precisa diminuir as distâncias dos concorrentes a vagas de trabalho , através da uniformização de todos a algum grau universitário.

Educação é um requisito para seleção, mas não determina o desenvolvimento econômico do país!

A produtividade determina o desenvolvimento econômico do país. E ela depende de atividades produtivas( o que não ocorre na educação). E quanto à "economia do conhecimento", na qual estamos inseridos? Ela sempre existiu! Se o conhecimento não vira produção, no final nada acontece do ponto de vista econômico.

O trágico é que a cultura brasileira não permite muita dedicação à produtividade. E o Pronatec até pode ter sido uma boa ideia, mas não tem funcionado na prática. E nas universidades as pesquisas geram conhecimento que não tem valor de mercado. E pesquisar em busca de lucro é perigoso!!!!! Misturar ciências e negócios gera riscos para as pessoas! É como disse o sociólogo Steve Fuller: " desenvolver pesquisas torna-se um mal necessário e quanto mais necessário, pior é o mal". Isto é, pesquisas precisam ser feitas para o bem das pessoas e não para os interesses capitalistas. Aqui está um dos  pontos de ruptura entre a Educação e o mercado, só para começar.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A Saúde é o bem maior

A Saúde é o bem maior no ranking.

Pode parecer lugar-comum um médico defender a saúde como o bem maior na nossa vida. Mas a saúde é verdadeiramente o bem maior para todos nós!

Na sociedade atual o trabalho está colocado artificialmente como número um no ranking. A idolatria ao trabalho transformou pessoas em "peças" numa engrenagem, sempre prontas a produzirem cada vez mais, sacrificando a própria saúde.

Na sociedade atual o investimento em saúde é baixo e a promoção de saúde perde para todas as atividades geradoras de doenças e desequilíbrios. 

Então estamos na era do avesso. Na era da incoerência. Na era do adoecimento.

Pessoas adoecem porque fumam, porque bebem, porque se alimentam mal e porque são torturadas 8 horas por dia em ambientes de trabalho insalubres que as tratam mal, pagam uma miséria e não agregam um sentido existencial.

A saúde é muda. Por isso, ninguém dá bola para o seu valor. Isso só é notado quando ela é perdida. Então a vida é perdida em seguida.

Sem saúde o resto perde o valor.
Sem saúde ninguém trabalha. Sem saúde, ter dinheiro perde o sentido. Sem saúde física e mental, não existe vida na sua plenitude.

A Saúde é o bem maior em todos rankings.

Por que a sociedade nega essa realidade?



quarta-feira, 15 de abril de 2015

Uma crença Imposta


Uma crença imposta é uma intromissão na sua Liberdade.

A sua vida é curta. Agora imagine alguém usurpando o seu tempo já curto,  ao impor ideias que não são escolhidas por você! Você está abdicando da própria liberdade!

E a liberdade é a condição básica para cada um de nós alcançar a individualidade. Qualquer imposição de alguma crença significa a perda dessa liberdade de escolha.

Concorda?

Agora fazem isso com você! O tempo todo usurpam a sua liberdade!

Como se sente ao descobrir isso? Está gostando? Aceita viver a vida sem liberdade de escolha?

E se você perceber que fazem isso com você desde o dia em que nasceu!

Você não disse nem "gugu, dada" e já lhe enfiaram uma indumentária completa de um time de futebol! O time  do seu papai. Não o seu!

Ou já escolheram a sua religião. A religião da sua mãe! Ou já escolheram o seu partido político! O do seu titio! Ou escolheram a sua namorada ou namorado. Ou a sua profissão! A profissão do seu vovô! Você é praticamente um fantoche transgeracional.

As suas crenças deveriam ser escolhidas livremente. E essas escolhas só podem ser feitas , com autonomia mínima, depois que o cérebro terminou o processo de mielinizar o centro da razão: o lobo pré-frontal. Isso ocorre lá pelos 23 anos de idade, se não houver atraso no amadurecimento cerebral.

Então, você vive a própria vida ou vive a vida escolhida por alguém quando você ainda era um incapaz?



Opiniões não mudam a Realidade



Pique todas as opiniões e as coloque num espremedor. No final, o sumo é um sumo de opiniões, mas não de realidade. A realidade dá de ombros para opiniões. 

Somos donos de nossas opiniões, mas quem manda, no final, é a realidade. E opiniões não mudam a realidade! Acostume-se com essa realidade.

Vejo pessoas dando o que podem dar: opiniões! 

E falam e defendem o seu ponto de vista com ardor, e aconselham, e choram , e se emocionam, e gritam, e esperneiam, e rezam, e no final, a realidade vem avassaladora e estraga a brincadeira! Ou a festa! Ou a homilia!

A realidade é soberana.

Se você consegue influenciar algo com o seu discurso é porque a realidade o apoia ou lhe defere a oportunidade de interpretá-la acertadamente.
 

Dar conselhos sobre relações afetivas, por exemplo. Se você ficar dentro da realidade, pode até acertar, mas quem decide o final da história é própria história dos amantes! Nem são eles! Se a realidade quiser, eles ficam juntos. 

Dar conselhos sobre... qualquer coisa! 

O conselho é direcionado à pessoa, certo? Mas quem decide é a realidade, que não escuta a pessoa! É a pessoa que escuta a realidade e pode decidir se alinhar com a realidade ou não.

Então, quanto gasto de energia à toa!

Vamos enxergar realidades e não opiniões. Opiniões custam um vintém furado e geralmente não acontecem. 

E quem quiser se iludir com opiniões, empanturre-se com fofocas, com moralismos, com a TV, com opinião do vizinho, da vizinha, do padre, do pastor , da cunhada, do cunhado e  do político.

Quem quiser enxergar a realidade, abra a percepção que não julga, mas computa. E quem for preguiçoso para isso, espere a realidade chegar um dia! Quando ela chegar, você entenderá.

Aprendi a aceitar a realidade. A realidade é diferente do que você pensa ou lhe dizem.

Sabe aquele casal que ia se separar? Eles continuam juntos.

Sabe aqueles pacientes com câncer terminal que buscaram a medicina alternativa ? Morreram todos.

Sabe aquele alcoolista que ia parar de beber pela sétima vez? Continua bebendo.

Isso é o que a realidade mandou dizer. 

Talvez um dia ELA envie recados mais afetivos para os corações que sofrem e gostariam de influenciá-la com a noção do certo e do errado. Por enquanto, ELA  não está nem aí para a sua opinião!

E as exceções? É um capricho desconhecido da realidade. 

Glórias do Passado são só Gratidão



Costumamos escutar "ele quer viver das glórias do passado." Não existem glórias do passado, apenas a gratidão de alguém que escuta a quem relembra das próprias glórias do passado!

As glórias e inglórias são vividas no presente. 

Recentemente um jornalista do SBT, no entusiasmo opinativo, chamou os pacientes depressivos de "covardes existenciais". E isso na mídia, que amplifica tudo. Perdeu o emprego!

A sua glória virou inglória, porque ele demonstrou um entusiasmo( que o caracterizava em outros tópicos jornalísticos) totalmente desinformado e preconceituoso.

Paulo Santana, o jornalista mítico, também andou falando e escrevendo besteiras, também foi da glória para a inglória.

A glória é um estado presente. Se a pessoa não cometer erros, ela vai mantendo a sua reputação. Ao cometer um erro, é execrada publicamente.

Dizia aquela música " a primeira vez é a última chance." Obviamente que existem graus de falha, de erro ou de equívoco, mas a segunda chance é rara de acontecer. Nunca conte com ela.

Então, quando escutar um velhinho( ou mesmo um jovem) falando do seus feitos do passado, escute. Ele pensará que é pelas suas glórias, pela "experiência compartilhada". Você saberá que escuta porque tem alguma  gratidão pela pessoa que fala.

A sociedade não tolera erros. Jovens podem errar, mas com quem os ama e por um tempo breve. Se errarem com estranhos, não vão arrumar emprego. E irão para o olho da rua! Isso vale para adultos e profissionais experientes também.

Profissionais podem errar, mas a sua reputação estará na guilhotina. O mundo anda rápido demais. E mesmo se você acertar em 99 % das vezes, a sua demissão virá do erro que corresponde a 1 %.

Faça o seu melhor. E vigie a sua boca. E procure ser mais competente que 99 % do conjunto de pessoas que compõe a sociedade. Essas pessoas relutam em demitir quem acerta mais do elas. Busque o diferencial em tudo que faz para aumentar as suas chances de longevidade profissional. E se aposente antes de confundir autonomia com onipotência!




terça-feira, 14 de abril de 2015

Ditadura da Extroversão



Ao receber um paciente depressivo, o familiar insiste que ele não sai, não fala com ninguém. Passa muito tempo quieto. "Não quer se divertir".

E eu pergunto como ele era antes da depressão? Ele costumava sair, ir muito a festas e eventos sociais? A resposta é não.

O critério de normalidade é tão distorcido na  sociedade, que o sinal de melhora de um paciente depressivo é virar extrovertido! Mesmo que ele seja, na sua essência, introvertido.

Chamo isso de "ditadura da extroversão".

Eu sou introvertido e não gosto de ver alguém querendo converter um introvertido em extrovertido. É injusto. É impossível. É uma violência.

Se a pessoa não estiver saltitando, está anormal. Se não estiver tagarelando, está anormal. Se não quiser ir a festas e baladas, é anormal. Se ela gostar de pouco estímulo, ela está deprimida. 

Não, a proporção de introvertidos para extrovertidos é 1 para 2 ou até mais. E mesmo assim, na era da aparência, quem não aparece não se destaca?  Quem não aparece está produzindo!

Temos que impor a "ditadura da introversão". E aqueles que gostam de discursar demais, interagir demais, sobressair demais, vamos verificar a produtividade, a criatividade e os resultados concretos.

Introvertidos são líderes melhores porque escutam mais. E são mais criativos porque acessam os próprios sentimentos com facilidade. E estudam mais porque apreciam a introspeção.

O extrovertido canta muito. Mas o ninho com os ovos é cultivado pelos introvertidos. Os introvertidos se extrovertem quando necessário, porque são disciplinados. Mas os extrovertidos só se introvertem quando, bem, estão depressivos ou perderam a festa.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Pressão Mental Dupla



Se o medo da loucura está no inconsciente coletivo, o risco da loucura está na realidade do psiquiatra.

A profissão médica é " muito exigente e exigida", como dizia o saudoso poeta( e psiquiatra) santa-mariense Prado Veppo. E a psiquiatria imprime um risco aumentado de adoecimento nos seus praticantes.

O psiquiatra se suicida mais que em outras especialidades. E , acredito eu, submetido à "dupla pressão mental", apresenta um risco maior de sucumbir ao estresse. A pressão é lidar com os problemas mentais alheios e as suas próprias angústias interiores.

Como psiquiatra, tenho a responsabilidade de vigiar a minha própria saúde mental e física para estar suficientemente bem para cuidar da saúde da minha paciente. E brinco sempre que o nosso tempo de vida útil não é ilimitado.

Escutar queixas faz parte da profissão. E muitas vezes as queixas são legítimas. Outras vezes são fantasiosas. Mas o esforço do profissional está em manter o seu próprio espaço mental livre dessas queixas! Não se contaminar.

E construir um espaço mental saudável a despeito das queixas cumulativas, das "loucuras" alheias, da distorção de pensamento, das pressões da família do paciente e da sociedade faz parte da nossa faxina mental.

É um trabalho hercúleo! E qual o trabalho que levado a sério não o é? Precisamos  conhecer nossas forças e fraquezas e sempre respeitar os limites humanos de bem-estar.

Para ser psiquiatra, ou professor, ou qualquer profissão que lida com a complexidade humana são necessárias humildade e aprendizagem constante.