Não vai pensando que eu vim aqui me queixar. Nem falar mal do governo. Isso nunca funcionou.
Vim aqui dizer o que percebo. A cidade de Santa Maria está um lixo. Literalmente.
Desde a tragédia da Boate Kiss, o poder público abandonou a cidade. Está jogada às traças. Acredito que criticaram demais o prefeito, culpando-o pela tragédia, que isso deve ter causado nele um profundo desgosto. Imagino. É uma suposição. Se eu fosse o prefeito, reagiria assim, como qualquer ser humano.
Não veja as minhas palavras como caça às bruxas. Não defendo ninguém. Sou apolítico.
O calçadão é uma sujeira, papéis jogados no chão, as lajotas são quebradas e encardidas. Mendigos perambulam por aí. Na frente do meu prédio , na entrada, virou o "fumódromo do calçadão". E o hall do prédio está empesteado.
E a cidade cultura? Quantos foram baleados no último mês próximos ao teatro? E os cinemas? Fecharam! Balas perdidas? Sim, atingiram a janela do meu apartamento.
Pode parecer lugar-comum falar em crise.
Mas a crise de que falo antecede a crise nacional. É o desleixo mesmo com a cidade, desleixo de todos nós. Ninguém é inocente.
Santa Maria, a cidade que me adotou há 24 anos, que admirava, como a "cidade onde eu vim fazer Medicina", virou uma cidade do interior, empobrecida, envelhecida, abandonada, encardida, com índices crescentes de violência.
E nada acontece. A mentalidade social vai se atrofiando junto com a decadência, justificada pela " crise". Desculpa, a sinceridade. A crise é nossa, é cultural, é mental. Estamos decadentes. Contentamo-nos com pouco.
Indústrias? Cultura? Não.
Setor terciário? Sim, bamba das pernas.
Mas tudo está nas pessoas, na mentalidade que vai corroendo algum resquício de motivação, de empreendedorismo.
Santa Maria está um lixo. Eu precisava lavar a roupa suja em público. Estava entalado na garganta. Não queria acreditar. Mas é verdade. Quem chega aqui, desavisado, toma um susto. Quem está aqui, que foi sendo cozinhado aos poucos, está acordando para a realidade.
O que fazer? Não sei. Mas continuar assim não dá mais!!
( Marcos Ferreira)