domingo, 14 de junho de 2015

PALESTRA- TDAH, Compartilhando Experiências Clínicas

Reuniram-se no dia 09/06/15, na churrascaria Bovinus, residentes de Psiquiatria, um neurologista, colegas psiquiatras, com o apoio científico do Laboratório Novartis.

O objetivo foi compartilhar experiências clínicas no diagnóstico e tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade ( TDAH ) em adultos.

O palestrante , Marcos Ferreira , foi o moderador do debate e abordou o tema ressaltando os seguintes pontos:

- Somente um adulto em cinco adultos portadores de TDAH recebe o diagnóstico e tratamento;

- O TDAH é um transtorno neurobiológico que inicia na infância e pode num percentual de 40% continuar ativo na vida adulta, principalmente com a presença de sintomas de desatenção;

- Foram relembradas as principais áreas cerebrais envolvidas nos mecanismos fisiopatológicos do transtorno: córtex pré-frontal dorso lateral, responsável pela atenção mantida e resolução de problemas; córtex cingulado anterior dorsal, responsável pela atenção seletiva; córtex orbito-frontal, responsável pelo controle de impulsos e córtex pré-frontal motor, responsável pela hiperatividade.

- O mecanismo neuroquímico subjacente responsável pelo transtorno envolve uma dessintonização desses circuitos pela insuficiência ou excesso da neurotramsmissão noradrenérgicas e dopaminérgicas.

- A presença de vários diagnósticos simultâneos no adulto( comorbidades) é a regra, o que aumenta o desafio diagnóstico e o cuidado na escolha de estratégias de tratamento.

- Entre os diagnósticos prevalentes nos portadores adultos de TDAH estão o uso e abuso de substâncias, transtorno de humor, transtorno de ansiedade e dependência de nicotina;

Por fim, houve espaço para que cada participante da audiência fizesse perguntas e compartilhasse a sua experiência pessoal no tratamento desse importante transtorno, que vem sendo mais reconhecido como alvo nos tratamentos, para uma completa melhora  na qualidade de vida dos pacientes.


terça-feira, 12 de maio de 2015

Menos é mais



"A riqueza de um homem é medida pelas coisas de que ele pode abdicar."

" O pior baque é ser rico, acostumar-se com a riqueza e depois ficar pobre."

Essas frases me levam a pensar no que verdadeiramente constitui uma riqueza.

Riqueza é aquilo  de que podemos abdicar ou aquilo de que não podemos abdicar?

A riqueza, na minha opinião, é a saúde! Sem ela, o resto é o resto. Causa-me um misto de estranheza ver pessoas com o pé na cova economizando dinheiro ou falando em dinheiro. Aí me ocorre que uma pessoa morre exatamente da mesma maneira que vive.

Então, riqueza é o que temos! 

Se precisamos de menos coisas para sermos ricos, então seremos ricos com mais facilidade. A riqueza depende da qualidade do que temos, não da quantidade.
Quem precisar acumular  mais e mais bens materiais, pode continuar pobre, mesmo tendo dinheiro.

Ter riqueza e ser rico não são sinônimos. Se você acumula bens materiais e não usufrui deles, não é rico. Se você usufrui das riquezas, mesmo sem acumulá-las, você é rico, sem riquezas.

Então, acumular riquezas é um contra-senso. A não ser que isso seja muito importante para a sua Felicidade. Vá em frente.  Talvez você queira deixar uma herança polpuda para os descendentes disputarem entre si.

Não estou advogando que seja errado acumular bens materiais, nem que alguém deva dilapidar o patrimônio antes de morrer. Defendo o bom senso de não trocar a vida pelos bens materiais.

Durante a vida é relevante descobrirmos o que constitui "riqueza" e o que é um "supérfluo". Para vivermos bem, precisamos viver como ricos, usufruindo do " supérfluo". Mas o supérfluo não precisa constituir a riqueza,  nem ser eliminado para aumentar a riqueza material.

O que precisamos para viver bem?

Atender a todas as nossas necessidades pessoais, inclusive usufruindo do "supérfluo". 

O que não precisamos para viver bem?

Sacrificar a vida por bens materiais e abdicar do supérfluo para acumular mais riquezas.

Tenho uma lista de supérfluos de que não abro mão: IPhone, Apple TV, tênis de corrida com amortecedores, comidas saudáveis, viagens para o exterior, cursos de autodesenvolvimento, jantar fora, massagem, roupas confortáveis , óculos com armação "fashion", relógio maneiro, perfumes, livros e motorista particular.

Tenho uma riqueza de que necessito: Saúde!



segunda-feira, 4 de maio de 2015

Alugo cérebros, mas não os compro



Descobri que alugar cérebros é como alugar filmes. Assisto-os e depois os devolvo. Ou melhor, tendo Apple TV, assisto e depois arquivo.

Comprar filmes já demonstra que estou virando um colecionador. E comprar cérebros, ou melhor dizendo, as representações mentais de pessoas, é aderir à uma ideologia.

E qual a ideologia que vai resolver todos os meus problemas? Nenhuma. O que acontece é que muitas ideologias vão melhorar a minha vida, de alguma maneira parcial.

Então, a postura mais favorável para usufruir das possibilidades é alugar a mente de pessoas diferentes que considero "úteis" para facilitar a minha vida.

E como ficamos mais inteligentes quando mais de uma mente se conjuga para nos ajudar a pensar.  Podemos enxergar as coisas de diferentes perspectivas. Podemos ter "insights", epifanias, enquanto navegamos nas mentes alheias.

Descobriu-se que temos uma memória de trabalho, que é uma espécie de "equilibrista de pratos". Essa memória consegue girar 4 pratos( pedaços de informação) ao mesmo tempo, mantê-los em rotação, sem deixar cair no chão. Mais do que isso, algum prato vai cair. A nossa memória de trabalho lida bem com 4 pedaços de informação ao mesmo tempo.

Quando alugamos mentes, essa memória de trabalho se expande! E se pensarmos enquanto os outros pensam, vamos girando mais e mais pratos, com a confluências de ideias diversas, que se potencializam ou se chocam! Ao se chocarem geramos percepções novas! Vira uma sinfonia de pratos. Uma sinfonia de ideias!

A memória de trabalho aumentada aumenta a inteligência. 

Vou indicar o YouTube como um local para alugar mentes. Pode ser o TED.  Pode ser o encontro com pessoas que estudam o que você gostaria de saber mais. Escute um Podcast sobre assuntos diversos. Mas você precisa ser curioso e participar ativamente. Pode ser um simples livro.

Eu expando a minha mente enquanto trabalho! Enquanto navego nas mentes de meus pacientes, " cognições" me assaltam, percepções me visitam, memórias dançam na minha imaginação. 

Trabalhar expande a minha inteligência! 

Quando chego em casa, volto a ter a minha mente primária, solitária. Aí, alugo a mente da minha esposa e fico inteligente outra vez! 

Essas mentes que alugamos são determinantes na nossa vida. São os chamados conselheiros. Os cinco conselheiros na sua vida determinam o seu sucesso ou fracasso potencial, pois alimentam o seu pensamento diário.

O psiquiatra ou psicólogo também funcionam como essa mente alugada, entre outras funções. 

Da mesma maneira que alugo cérebros, não vendo o meu cérebro, alugo-o num encontro chamado consulta ou psicoterapia. E dou o meu melhor para que o paciente fique mais inteligente nessa interação.

Quem aluga a sua mente?
Você aluga a mente de quem? 
Vocês estão girando mais ou menos pratos? 
Alguns pratos estão quebrando? Por quê?

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Congressos Médicos e Experiências



Estou neste exato momento no Congresso Mundial do Cérebro, Comportamento e Emoções - 2015, em Porto Alegre.

Por que ainda participamos de congressos em  pleno 2015 ?

 Todas as palestras que assisto aqui podem ser acessadas online pelo valor de 250 reais.

Congressos médicos podem desaparecer com os anos, mas acredito que continuaremos  indo a congressos em busca de experiências! 

Que outro lugar teríamos a oportunidade de reencontrar colegas e trocar experiências?

Estou falando do intercâmbio de ideias, da convivência recreacional, da socialização, do afastamento das rotinas estafantes de trabalho. Estou falando de turismo também. Viajar nos possibilita desligar do dia-a-dia e recarregar as baterias.

O que eu posso aprender em 3 dias de convivência com os colegas é mais do que posso aprender solitariamente no consultório por meses. Isso porque terei acesso  à perspectiva de alguém que entende  e lida com os mesmos dilemas e angústias que enfrento profissionalmente.

Temos os jantares, os cafezinhos, os lanches, o hotel, o café da manhã do hotel, os espetáculos culturais e muito mais. É uma gama de atividades que chacoalha a nossa rotina de trabalhar e trabalhar e trabalhar.

Aprendi várias coisas novas dentro das salas de estudo e mais ainda fora delas.
Reencontrei colegas de residência médica, que me enriqueceram com as suas percepções.

Claro que , para acessar os conteúdos online por 250 reais, é preciso pagar a inscrição, que custou muito mais. E quando vamos a congressos, deixamos de atender os pacientes e ficamos sem remuneração.

Resumindo,  investimos muito para irmos a congressos, e graças ao apoio científico de alguns laboratórios, podemos ir a congressos com mais frequência que poderíamos sem esse suporte. Tudo isso dentro da lei, dentro das regras da ANVISA. 

Sem essas condições todas, ficaria inviável participar dos eventos. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Estudar para quê?

Estou cansado de estudar.

Nunca pensei que pudesse cansar de estudar. Estou cansado de ler.

Ultimamente compro mais livros por hábito do que por intenção de lê-los. É quase como   a "síndrome do membro fantasma": depois que uma pessoa tem uma perna amputada, ela continua sentindo dor ou coceira no membro amputado. Diminuiu a minha vontade de ler, ficou a coceira de comprar livros.

Então comecei a ler menos.

Decidi que vou estreitar minha amplitude de interesses intelectuais. Vou me transformar num especialista em pouquíssimas coisas. E vou me transformar num ignorante generalista. Direi " não sei " com a cara mais inocente e orgulhosa possível.

Eu comecei a minha trajetória com todo o gás. Minha predileção era por assuntos escolares. Depois fiquei menos neurótico psicologicamente e englobei assuntos extra-escolares. Depois , ainda com pique, diversifiquei os meus interesses por assuntos diferentes e até exóticos, que iam da Física até a Metafísica.

Conservo leituras na minha área profissional, fiz um MBA em gestão empresarial e revisito a filosofia com frequência religiosa. Mas ando desmotivado para novas aventuras literárias.

As leituras parecem repetitivas. Acrescentam pouco. Tomam tempo.

Mas e o prazer da leitura? Nunca tive. Tinha o prazer de saber, de aprender! Sabe quem tem prazer com a leitura? Quem lê pouco. Então é um lazer esporádico. Talvez lendo menos eu possa sentir esse prazer um dia.

Estudar? Estudar para quê? 

Para saber. Mas os materiais de estudo ensinam o que não precisamos saber.  São conhecimentos inúteis, que serão esquecidos em pouco tempo. Outros conhecimentos têm utilidade restrita em alguma situação específica, mas de importância não vital.

Sempre pensei que , em matéria de estudo,  mais fosse sempre o desejável. Hoje sei que menos é mais.  Chega um ponto em que saturamos nossos neurônios com tanta informação dispensável.

Talvez eu só consiga dizer isso justamente por ter a cabeça cheia de conhecimentos que migraram para o meu inconsciente e de lá me dão a sabedoria para eu chegar a essa conclusão!  Ok, estudei tanto para concluir que existe uma certa ineficácia em estudar, depois de tanto estudar. 

Vale a pena estudar? 

Vou ser justo com a vida. O estudo me deu a profissão que tenho. Mas é o trabalho que me mantém exitoso nela. Se eu não tivesse estudado, poderia realizar um trabalho acima da média? Poderia, mas foi o conhecimento através do estudo-aprendizagem, que me possibilitou ser mais capacitado.

Então estudar é uma parte do êxito. Mas é uma parte essencial.

Quero aprender, de preferência, só o que tem valor para a vida de agora em diante. E através de outras fontes além dos textos. Talvez filmes, conversas, sei lá. 

Agora estou numa fase de me perguntar: isso serve para alguma coisa de maneira real?

 Tenho percebido que aprendi muita inutilidade desde a época da escola e não aprendi coisas importantes. Por exemplo, não aprendi a ter certeza ainda sobre o que é importante saber na vida.

 Poderia me ajudar?





Necessidades, Desejos e Vícios



As únicas  necessidades que verdadeiramente existem são as fisiológicas: fome, ir ao banheiro, sede , sono, etc. 

Quando eu tinha 12 anos, numa caçada de pombas, sob o sol escaldante, descobri o que é ter sede. E saciei a vontade tomando limonada num balde! Nunca mais senti essa necessidade de maneira tão dramática.


Um psicólogo chamado Abraham Maslow criou a hierarquia das necessidades. Segundo ele, depois que as necessidades fisiológicas são atendidas, o indivíduo busca a realização de outras necessidades. E assim continua subindo na Pirâmide até o topo. Duvido!


Sem querer contrariar o psicólogo, nós temos apenas necessidades fisiológicas, aí incluindo a necessidade de abrigo e de segurança. Fora isso, o restante é desejo, vício ou necessidade falsa. 

Eu desejo tomar um vinho( o que faço agora), enquanto espero a comida. Meu estômago faz barulhos porque estou em jejum há 3 horas. Fitando essa bela taça de vinho, sorvo alguns goles. Mas estou fissurado mesmo é na comida que ainda não chegou. Eu necessito dela. Curto o vinho, mas sou escravo da minha fome.


Abraham Maslow e a sua pirâmide foram adotados pela Administração. E assim nasceu o marketing: atender desejos e criar necessidades. "Criar"!

O que angustia as pessoas é a sempre renovada lista de "necessidades" que não conseguem comprar e as insatisfações que permanecem quando essas " necessidades" são saciadas. 

O que gera insatisfação é o desejo atendido.
Um desejo atendido é apenas legal. Reconheço que os desejos temperam a vida. Sofisticam-na.

 Uma necessidade atendida é um alívio. É um prazer. Faça o seguinte: encha a sua bexiga a ponto de estourar e segure o máximo. Quando estiver quase morrendo, esvazie! Ufa! Que satisfação. Ah! A respiração é outra necessidade fisiológica.

Conto nos dedos as necessidades. Quando lhe dizem que os maiores prazeres são simples, estão falando das necessidades fisiológicas! Uma boa comida( a fome saciada) , uma boa conversa( ser acolhido), o conforto do lar( segurança).

Será que viajar é um desejo ou uma necessidade? Um desejo! Para mim tem gosto de necessidade.

Uma Ferrari ? Desejo.
Sucesso? Desejo.
Beber? Vício.
Sexo? Desejo e vício.
Ganhar dinheiro? Desejo e vício.
Religião? Desejo e vício.
Espiritualidade? Necessidade?
Novela? Necessidade falsa e vício.
Futebol? Necessidade falsa e vício.
Exercício Físico? Desejo e vício.
Saúde? Necessidade.


Somos ricos porque temos somente necessidades fisiológicas. E ficamos pobres quando os desejos sobrepujam as necessidades. Pior do que isso, somente um miserável, dominado pelo vício!

O vício é perversão do desejo. E a compulsão é perversão da necessidade.

Terminei a minha refeição! Que prazer! Saciou a minha fome. Estou finalizando o vinho. O vinho parece um acompanhante mais sereno agora que a fome foi embora. 

O garçon me oferece um cafezinho. Mais um desejo. Curto bastante. Relaxo.

Maslow tinha razão, saciamos as necessidades primeiro. Talvez a sua Pirâmide pudesse ser chamada de Pirâmide dos desejos. Ficaria mais opcional. 

Vou dormir saciado! E um bom sono me faz a pessoa mais realizada do mundo.

E você?

terça-feira, 28 de abril de 2015

Amar é assimétrico

Amar é assimétrico.

Toda simetria é a ausência de amor. Amar o quê, a não ser as diferenças ? Só conseguimos amar as diferenças que nos atraem, nos comovem, nos enredam.

Enquanto existe potencialidade num amante, a semente da assimetria traz a esperança de novas diferenças. E se essas diferenças foram atrativas, o amor se renova. Se essas diferenças forem repulsivas, o amor desvanece.

Amar é assimétrico.

Num dia um ama, noutro dia o outro ama. Longos períodos decorrem para compreendermos um ciclo completo de alternância do poder de ser amado ou da submissão de amar voluntariamente.


Os dois amarem simetricamente chama-se paixão.
Há uma simetria de desejos e entregas, de calor e de combustão. E se um( a) torna-se assimétrico através de mais devoção, o( a) outro( a) apara esses picos, planificando os desejos com novas surpresas!

Amar é sempre assimétrico.

Ama-se mais, depois se ama menos, depois não se ama por um tempo, depois se ama vigorosamente, depois se é amado.

Toda simetria pode equivaler à amizade.
Toda simetria pode equivaler à hierarquia.
Toda simetria pode equivaler à paixão, mas o amor é assimétrico.

Amar é sempre assimétrico, porque amamos as diferenças atrativas no( a ) outro(a). E chegamos a admirá-las. Quando as diferenças desaparecem, o amor desaparece. Quando as semelhanças se tornam o vínculo, ele é rompido, sobrando a eterna agonia da rotina.

sábado, 25 de abril de 2015

O Pescoço da Garrafa



Quando estamos com pressa, "parece que o semáforo sempre está no vermelho."

Quando caminhamos numa rua movimentada, e estamos com pressa, algumas pessoas caminham displicentemente na nossa frente, retardando o nosso passo. Tudo que queremos é uma brecha para as ultrapassarmos.

A sensação de pressa associada à " lentidão de quem caminha" ou ao semáforo que desacelera e  nos faz parar, gera angústia, ansiedade e até alguns xingamentos silenciosos ou parcialmente audíveis.

Já passou por isso?

Mas são as pessoas que andam devagar ou é você  que está com muita pressa?

__ Ambos!

Chamamos isso de "gargalo". Ou, na visão sistêmica, o efeito do pescoço da garrafa. Em qualquer situação de interdependência, a " velocidade do sistema é determinada pelo participante mais lento."

Isso vale para um time, para uma equipe de trabalho, para uma sociedade, para um país, para pessoas usando o mesmo trajeto na rua, para o casamento, para pais e filhos!

Pesquisadores descobriram que a sua inteligência é influenciada por 5 pessoas com quem você convive mais. E também os seus hábitos alimentares! E provavelmente outros atributos comportamentais e mentais.

Essa percepção é importante para entender como está funcionando a sua vida. E para que você ajuste as suas expectativas de maneira realista ao sistema em que está inserido.

Por exemplo, num casamento , o cônjuge " mais lento" vai travar o mais rápido. Numa sociedade, o sócio mais visionário será travado pelo sócio mais conservador. Isso pode ser bom, quando são diferenças complementares. Mas será ruim se forem diferenças extremas.

Mas ,por exemplo, não adianta um cônjuge "botar pilha" no outro, se for uma característica de personalidade imutável! Ou aceita o jeito ou se separa. Por isso, cônjuges muito diferentes têm dificuldade de  darem certo, porque a longo prazo essas diferenças pesam!!!!!

Estudar é outro exemplo. Um parceiro gosta de estudar e outro não gosta. Não adianta o parceiro que gosta de estudar ficar pegando no pé do outro para estudar. Não funciona!

E como esses dois exemplos, o sistema vai ser influenciado para baixo. Essa desaceleração pode ser boa, indiferente ou incompatível para a sobrevivência dos envolvidos no sistema.

 Não há o que fazer, muito menos querer acelerar "os lentos". O que resta é travar os "rápidos".



sexta-feira, 24 de abril de 2015

O Corpo precede a Mente



Atendi uma paciente que não consultava há 6 meses. Perguntei se ela havia abandonado o tratamento e  ela disse: _ " Não, estou tomando os seus medicamentos e estou bem!"

" Os seus medicamentos", perceba.

E por que não voltou depois da primeira consulta, perguntei.

__ " Por que tive vários problemas de saúde". Me operei de....., depois tive......."

Atendi a mãe de uma paciente, muito preocupada com a filha. Orientei a levar a filha ao Pronto-atendimento.

__ " Mas os médicos dizem que ela não tem nada, os exames deram normais". 
Respondi que agora poderia ser alguma coisa, ninguém está livre de ter algo físico neste exato momento.

São duas situações que nos levam a entender que o corpo precede a mente! 
Isto é, precisamos descartar alguma causa física antes de pensarmos num transtorno mental.

E mesmo que a paciente tenha um transtorno mental, ela não está livre de uma doença física.

Apesar de o cérebro fazer parte do corpo, vamos considerar o corpo do pescoço para baixo, para ilustrarmos a ideia. 

Se uma pessoa tem uma doença física e essa doença não for tratada, pode evoluir para a morte!  Geralmente são quadros agudos que podem ser fatais!

Se uma pessoa tem uma doença mental, se essa doença não for tratada, salvo exceções, quando há risco de suicídio, geralmente a evolução é mais crônica. Obviamente que muitos transtornos mentais podem levar à morte também, mas são a exceção e não a regra.

Então, o corpo precede a mente em prioridade de avaliação!

Mas para o ser humano o corpo e a mente têm o mesmo valor. Sem corpo não há vida. E sem mente não há qualidade de vida.

Primeiro descartar uma doença física.
Depois investigar possíveis causas mentais.
Se todos seguirem essa ordem, fica mais fácil confirmar os diagnósticos e recomendar os tratamentos.



quinta-feira, 23 de abril de 2015

Saúde Mental e Religião



Minha avó era espírita. Minha mãe é evangélica. Eu estudei em colégio Marista.

A religião parece ter um reflexo positivo sobre a longevidade. A Psiquiatria possui departamentos que estudam Espiritualidade e Religiosidade.

Ontem escutei um programa num canal de podcast chamado "TheThinkingAtheist".

O painel envolvia o debate de um psicólogo, uma neurocientista, um psiquiatra , um ateu depressivo e participação de ouvintes.

A primeira coisa que me chamou a atenção é que o apresentador do programa  listou os principais transtornos mentais: Depressão, Transtorno Bipolar, Transtorno Dissociativos, Transtorno de Ansiedade, etc. Não houve hesitação em sua voz em nenhum momento!

Por se tratar de um canal ateísta, percebi que o apresentador não duvida da ciência, porque o seu modelo de Saúde Mental é exatamente o mesmo em que nós , psiquiatras biológicos, e neurocientistas, acreditamos.

Mas e as pessoas religiosas?

Neste debate, ficou claro que "A Saúde Mental" é um conceito diferente para cada religião ! É como isso pode afetar a interpretação de sintomas? É como isso vai influenciar na aceitação de tratamento?

Por exemplo, uma pessoa que é " médium" está falando com espíritos ou são alucinações ?  Como diferenciar?

Ser depressivo na religião Calvinista " é decepcionar Deus no seu projeto! " Como ajudar um calvinista depressivo?

Como ficam os tratamentos psiquiátricos  nos quais pastores orientam os seus fiéis a pararem os medicamentos e os substituírem por preces?

Como fica o diagnóstico de depressão, quando um padre, nacionalmente conhecido, diz que "venceu a depressão sem medicamentos" e ensina como fazer isso num livro!

E lembro o caso da Cientologia, a religião do ator Tom Cruise, que odeia a Psiquiatria, dando suporte a entidades civis internacionais que militam contra "quaisquer" tratamentos psiquiátricos!

O ateu depressivo do painel foi recomendado , pela sua família e amigos, a se reconverter à religião para se livrar do transtorno, " pois era o seu ateísmo que havia causado a depressão"! 

As Religiões, dependendo do modelo de Saúde Mental que adotam, vão doutrinar as suas ovelhas a se comportarem de determinada maneira. 

Tenho visto que algumas religiões ajudam bastante na recuperação em quadros de dependência química. Tenho visto que espíritas recomendam tratamentos psiquiátricos adjuvantes.  Talvez esses pontos de alinhamento possam ajudar os pacientes.

Mas como ficam os pontos de discordância?

Quanto às outras perguntas, deixo para você refletir, por se tratar de uma interface relevante- Saúde Mental e Religião- , com enormes impactos na vida cotidiana.






quarta-feira, 22 de abril de 2015

Tédio Existencial



No meio de tantos sintomas mentais, detectamos  a presença do tédio existencial.

Dias atrás uma paciente, depois de batalhar, alcançou duas metas ao mesmo tempo. Antes ela estava frustrada porque não conseguia encaminhar a sua vida pessoal e profissional. Seis meses depois, ela tinha resolvido essas duas questões. Estava bem, mas entediada.

Na consulta, ao perceber isso, lancei a ideia de que agora ela estava sem desafios! Imediatamente seus olhos voltaram a brilhar.

O tédio existencial é um estado emocional permanente e transitório. Ele é permanente porque faz parte da natureza da própria vida. A vida, se analisada no microscópio, não tem um sentido pré-determinado. Ou você cria um sentido ou vai sempre trombar com o nada. E é transitório porque logo que você se ocupa, ele sai de cena e volta para os bastidores.

Viver é, portanto, entre outras coisas,  ocupar-se com atividades que desviem a sua atenção da inexistência de um sentido existencial. 

Todo e qualquer sentido é adotado( ou implantado)por cada um( em cada um )durante a vida. Pode ser uma ideologia, uma religião, um trabalho ou uma família. Mas nenhum sentido é mais importante que outro, a não ser pelo juízo de valor de quem o adota. Ou o juízo de valor de quem o julga.

O que é vida? Existem muitas explicações.
Qual o sentido da vida? Existem escolhas, mas a certeza de um sentido único não existe.

Quando você sai de cena desse teatro vivencial, e tira as vestes, vai para os bastidores, sem plateia ou aplausos, encontra o silêncio da sua consciência. 

E a consciência questiona. São as dúvidas existenciais!

E para calar a consciência, basta voltar para o palco e assumir algum personagem novamente.

Que personagem vale a pena? 

Esse personagem permite que você viva realizado ao encontrar todo o seu talento? 



segunda-feira, 20 de abril de 2015

É possível conhecer a natureza humana?



Depois de 15 anos atendendo transtornos mentais fico me perguntando se existe uma natureza humana? 

Em 15 anos tenho visto de tudo ou quase tudo. E se me fogem os casos raros, me sobram os casos frequentes.

Eu estaria vendo a natureza humana ou a natureza humana acometida de transtorno mental?  Eu já teria estatísticas suficientes para arriscar uma hipótese?

Levando em conta que a evolução é muito lenta, isto é, o ser humano não vai surpreender a todos nós nos próximos anos, posso supor que:

Que sim, somos muito previsíveis. As pequenas diferenças para melhor são resultado das oportunidades ambientais, do acaso e de algum cérebro privilegiado.

As diferenças para pior são a regra da evolução agregada aos genes, devido à influência cultural maciça e  aos cérebros medianos.

O meu microcosmos é bem pior do que o macrocosmos mundial. Isso poderia afetar a minha análise, distorcê-la. Mas essa diferença é muito pequena. Não posso comparar o Brasil com a Inglaterra em termos culturais, mas em termos humanos são similares.

Sim, existe uma natureza humana. E ela é pouco evoluída. 

Temos a submissão da maioria ao que é  pouco nobre no sentido existencial. E o ser humano é entusiasmado nas suas buscas: seduz a si mesmo em busca de dinheiro, fama, prazer, títulos e poder! E usa a mentira e a violência.

A idade da razão nunca chegou! 

 Razão não é racionalização. Razão é ponderar as consequências dos atos. Racionalização é inventar explicações aparentemente lógicas para justificar escolhas estúpidas.

A natureza humana abusa da racionalização.

Qual a perspectiva de mudança? Mínimas.

O que faremos? 

Navegaremos em mares bravios ou em mares calmos? 

Se não há perspectiva de mudar a natureza humana em proporções populacionais, podemos atuar auxiliando indivíduos que buscam o aprimoramento pessoal. Isso vai mudar o mundo? Duvido.

Poderia mudar o mundo um dia? Poderia.
Mas a probabilidade de acontecer é ínfima.

Estamos falando da resultante biológica de diferentes raças, imersas em diferentes culturas, com diferentes línguas e com diferentes religiões. O estado de anarquia contribui para a paralisação de qualquer resultante. 

E não vejo nenhum esforço na direção da união dos povos. E a união seria , se ocorresse, das mentalidades submetidas às culturas existentes!

Na evolução não há saltos tão altos. 
Tudo é lento. É mais provável que alguma catástrofe natural destrua a Terra antes.