sábado, 25 de abril de 2015

O Pescoço da Garrafa



Quando estamos com pressa, "parece que o semáforo sempre está no vermelho."

Quando caminhamos numa rua movimentada, e estamos com pressa, algumas pessoas caminham displicentemente na nossa frente, retardando o nosso passo. Tudo que queremos é uma brecha para as ultrapassarmos.

A sensação de pressa associada à " lentidão de quem caminha" ou ao semáforo que desacelera e  nos faz parar, gera angústia, ansiedade e até alguns xingamentos silenciosos ou parcialmente audíveis.

Já passou por isso?

Mas são as pessoas que andam devagar ou é você  que está com muita pressa?

__ Ambos!

Chamamos isso de "gargalo". Ou, na visão sistêmica, o efeito do pescoço da garrafa. Em qualquer situação de interdependência, a " velocidade do sistema é determinada pelo participante mais lento."

Isso vale para um time, para uma equipe de trabalho, para uma sociedade, para um país, para pessoas usando o mesmo trajeto na rua, para o casamento, para pais e filhos!

Pesquisadores descobriram que a sua inteligência é influenciada por 5 pessoas com quem você convive mais. E também os seus hábitos alimentares! E provavelmente outros atributos comportamentais e mentais.

Essa percepção é importante para entender como está funcionando a sua vida. E para que você ajuste as suas expectativas de maneira realista ao sistema em que está inserido.

Por exemplo, num casamento , o cônjuge " mais lento" vai travar o mais rápido. Numa sociedade, o sócio mais visionário será travado pelo sócio mais conservador. Isso pode ser bom, quando são diferenças complementares. Mas será ruim se forem diferenças extremas.

Mas ,por exemplo, não adianta um cônjuge "botar pilha" no outro, se for uma característica de personalidade imutável! Ou aceita o jeito ou se separa. Por isso, cônjuges muito diferentes têm dificuldade de  darem certo, porque a longo prazo essas diferenças pesam!!!!!

Estudar é outro exemplo. Um parceiro gosta de estudar e outro não gosta. Não adianta o parceiro que gosta de estudar ficar pegando no pé do outro para estudar. Não funciona!

E como esses dois exemplos, o sistema vai ser influenciado para baixo. Essa desaceleração pode ser boa, indiferente ou incompatível para a sobrevivência dos envolvidos no sistema.

 Não há o que fazer, muito menos querer acelerar "os lentos". O que resta é travar os "rápidos".



sexta-feira, 24 de abril de 2015

O Corpo precede a Mente



Atendi uma paciente que não consultava há 6 meses. Perguntei se ela havia abandonado o tratamento e  ela disse: _ " Não, estou tomando os seus medicamentos e estou bem!"

" Os seus medicamentos", perceba.

E por que não voltou depois da primeira consulta, perguntei.

__ " Por que tive vários problemas de saúde". Me operei de....., depois tive......."

Atendi a mãe de uma paciente, muito preocupada com a filha. Orientei a levar a filha ao Pronto-atendimento.

__ " Mas os médicos dizem que ela não tem nada, os exames deram normais". 
Respondi que agora poderia ser alguma coisa, ninguém está livre de ter algo físico neste exato momento.

São duas situações que nos levam a entender que o corpo precede a mente! 
Isto é, precisamos descartar alguma causa física antes de pensarmos num transtorno mental.

E mesmo que a paciente tenha um transtorno mental, ela não está livre de uma doença física.

Apesar de o cérebro fazer parte do corpo, vamos considerar o corpo do pescoço para baixo, para ilustrarmos a ideia. 

Se uma pessoa tem uma doença física e essa doença não for tratada, pode evoluir para a morte!  Geralmente são quadros agudos que podem ser fatais!

Se uma pessoa tem uma doença mental, se essa doença não for tratada, salvo exceções, quando há risco de suicídio, geralmente a evolução é mais crônica. Obviamente que muitos transtornos mentais podem levar à morte também, mas são a exceção e não a regra.

Então, o corpo precede a mente em prioridade de avaliação!

Mas para o ser humano o corpo e a mente têm o mesmo valor. Sem corpo não há vida. E sem mente não há qualidade de vida.

Primeiro descartar uma doença física.
Depois investigar possíveis causas mentais.
Se todos seguirem essa ordem, fica mais fácil confirmar os diagnósticos e recomendar os tratamentos.



quinta-feira, 23 de abril de 2015

Saúde Mental e Religião



Minha avó era espírita. Minha mãe é evangélica. Eu estudei em colégio Marista.

A religião parece ter um reflexo positivo sobre a longevidade. A Psiquiatria possui departamentos que estudam Espiritualidade e Religiosidade.

Ontem escutei um programa num canal de podcast chamado "TheThinkingAtheist".

O painel envolvia o debate de um psicólogo, uma neurocientista, um psiquiatra , um ateu depressivo e participação de ouvintes.

A primeira coisa que me chamou a atenção é que o apresentador do programa  listou os principais transtornos mentais: Depressão, Transtorno Bipolar, Transtorno Dissociativos, Transtorno de Ansiedade, etc. Não houve hesitação em sua voz em nenhum momento!

Por se tratar de um canal ateísta, percebi que o apresentador não duvida da ciência, porque o seu modelo de Saúde Mental é exatamente o mesmo em que nós , psiquiatras biológicos, e neurocientistas, acreditamos.

Mas e as pessoas religiosas?

Neste debate, ficou claro que "A Saúde Mental" é um conceito diferente para cada religião ! É como isso pode afetar a interpretação de sintomas? É como isso vai influenciar na aceitação de tratamento?

Por exemplo, uma pessoa que é " médium" está falando com espíritos ou são alucinações ?  Como diferenciar?

Ser depressivo na religião Calvinista " é decepcionar Deus no seu projeto! " Como ajudar um calvinista depressivo?

Como ficam os tratamentos psiquiátricos  nos quais pastores orientam os seus fiéis a pararem os medicamentos e os substituírem por preces?

Como fica o diagnóstico de depressão, quando um padre, nacionalmente conhecido, diz que "venceu a depressão sem medicamentos" e ensina como fazer isso num livro!

E lembro o caso da Cientologia, a religião do ator Tom Cruise, que odeia a Psiquiatria, dando suporte a entidades civis internacionais que militam contra "quaisquer" tratamentos psiquiátricos!

O ateu depressivo do painel foi recomendado , pela sua família e amigos, a se reconverter à religião para se livrar do transtorno, " pois era o seu ateísmo que havia causado a depressão"! 

As Religiões, dependendo do modelo de Saúde Mental que adotam, vão doutrinar as suas ovelhas a se comportarem de determinada maneira. 

Tenho visto que algumas religiões ajudam bastante na recuperação em quadros de dependência química. Tenho visto que espíritas recomendam tratamentos psiquiátricos adjuvantes.  Talvez esses pontos de alinhamento possam ajudar os pacientes.

Mas como ficam os pontos de discordância?

Quanto às outras perguntas, deixo para você refletir, por se tratar de uma interface relevante- Saúde Mental e Religião- , com enormes impactos na vida cotidiana.






quarta-feira, 22 de abril de 2015

Tédio Existencial



No meio de tantos sintomas mentais, detectamos  a presença do tédio existencial.

Dias atrás uma paciente, depois de batalhar, alcançou duas metas ao mesmo tempo. Antes ela estava frustrada porque não conseguia encaminhar a sua vida pessoal e profissional. Seis meses depois, ela tinha resolvido essas duas questões. Estava bem, mas entediada.

Na consulta, ao perceber isso, lancei a ideia de que agora ela estava sem desafios! Imediatamente seus olhos voltaram a brilhar.

O tédio existencial é um estado emocional permanente e transitório. Ele é permanente porque faz parte da natureza da própria vida. A vida, se analisada no microscópio, não tem um sentido pré-determinado. Ou você cria um sentido ou vai sempre trombar com o nada. E é transitório porque logo que você se ocupa, ele sai de cena e volta para os bastidores.

Viver é, portanto, entre outras coisas,  ocupar-se com atividades que desviem a sua atenção da inexistência de um sentido existencial. 

Todo e qualquer sentido é adotado( ou implantado)por cada um( em cada um )durante a vida. Pode ser uma ideologia, uma religião, um trabalho ou uma família. Mas nenhum sentido é mais importante que outro, a não ser pelo juízo de valor de quem o adota. Ou o juízo de valor de quem o julga.

O que é vida? Existem muitas explicações.
Qual o sentido da vida? Existem escolhas, mas a certeza de um sentido único não existe.

Quando você sai de cena desse teatro vivencial, e tira as vestes, vai para os bastidores, sem plateia ou aplausos, encontra o silêncio da sua consciência. 

E a consciência questiona. São as dúvidas existenciais!

E para calar a consciência, basta voltar para o palco e assumir algum personagem novamente.

Que personagem vale a pena? 

Esse personagem permite que você viva realizado ao encontrar todo o seu talento? 



segunda-feira, 20 de abril de 2015

É possível conhecer a natureza humana?



Depois de 15 anos atendendo transtornos mentais fico me perguntando se existe uma natureza humana? 

Em 15 anos tenho visto de tudo ou quase tudo. E se me fogem os casos raros, me sobram os casos frequentes.

Eu estaria vendo a natureza humana ou a natureza humana acometida de transtorno mental?  Eu já teria estatísticas suficientes para arriscar uma hipótese?

Levando em conta que a evolução é muito lenta, isto é, o ser humano não vai surpreender a todos nós nos próximos anos, posso supor que:

Que sim, somos muito previsíveis. As pequenas diferenças para melhor são resultado das oportunidades ambientais, do acaso e de algum cérebro privilegiado.

As diferenças para pior são a regra da evolução agregada aos genes, devido à influência cultural maciça e  aos cérebros medianos.

O meu microcosmos é bem pior do que o macrocosmos mundial. Isso poderia afetar a minha análise, distorcê-la. Mas essa diferença é muito pequena. Não posso comparar o Brasil com a Inglaterra em termos culturais, mas em termos humanos são similares.

Sim, existe uma natureza humana. E ela é pouco evoluída. 

Temos a submissão da maioria ao que é  pouco nobre no sentido existencial. E o ser humano é entusiasmado nas suas buscas: seduz a si mesmo em busca de dinheiro, fama, prazer, títulos e poder! E usa a mentira e a violência.

A idade da razão nunca chegou! 

 Razão não é racionalização. Razão é ponderar as consequências dos atos. Racionalização é inventar explicações aparentemente lógicas para justificar escolhas estúpidas.

A natureza humana abusa da racionalização.

Qual a perspectiva de mudança? Mínimas.

O que faremos? 

Navegaremos em mares bravios ou em mares calmos? 

Se não há perspectiva de mudar a natureza humana em proporções populacionais, podemos atuar auxiliando indivíduos que buscam o aprimoramento pessoal. Isso vai mudar o mundo? Duvido.

Poderia mudar o mundo um dia? Poderia.
Mas a probabilidade de acontecer é ínfima.

Estamos falando da resultante biológica de diferentes raças, imersas em diferentes culturas, com diferentes línguas e com diferentes religiões. O estado de anarquia contribui para a paralisação de qualquer resultante. 

E não vejo nenhum esforço na direção da união dos povos. E a união seria , se ocorresse, das mentalidades submetidas às culturas existentes!

Na evolução não há saltos tão altos. 
Tudo é lento. É mais provável que alguma catástrofe natural destrua a Terra antes. 





domingo, 19 de abril de 2015

O Mito Econômico do Valor da Educação



Quando empresários recomendaram a um "trainee"que trancasse a sua matrícula na universidade para estagiar com eles, pensei: "como esses capitalistas só pensam em dinheiro. Eles não pensam na pessoa, no capital intelectual que esse jovem representa para o país ?"

Acredito que um título com o termo "educação"afasta os capitalistas. Nenhum capitalista tem tempo para ler. Porque atividades educacionais são investimentos pessoais, de autoconhecimento e auto-evolução. Mas são improdutivas do ponto de vista econômico.

Como assim?

Isto mesmo! Educação e desenvolvimento econômico coexistem apenas, mas não estão relacionados! Pelo menos, as evidências estatísticas mundiais mostram isso. 

Sabe aquele discurso de que o governo precisa investir em educação para que  o Brasil seja um país desenvolvido economicamente? Pura balela! Discurso de político!

Desenvolvimento econômico e índices de instrução básica e universitária não têm correlação alguma! Chocante!

Como assim?

A Educação é muito importante do ponto de vista pessoal e social, mas não repercute nos índices de progresso econômico de um país! Estudar é um investimento para conquistar posições na hierarquia corporativa, mas impacta pouco no futuro econômico de um país!

Sei que parece contraintuitivo o que escrevo, mas é verdade.

Talvez por isso o governo fale em investir em cursos técnicos, porque eles tentam aumentar a produtividade e não o conhecimento formativo. Por isso,  o governo abriu as porteiras do acesso às universidades, porque precisa diminuir as distâncias dos concorrentes a vagas de trabalho , através da uniformização de todos a algum grau universitário.

Educação é um requisito para seleção, mas não determina o desenvolvimento econômico do país!

A produtividade determina o desenvolvimento econômico do país. E ela depende de atividades produtivas( o que não ocorre na educação). E quanto à "economia do conhecimento", na qual estamos inseridos? Ela sempre existiu! Se o conhecimento não vira produção, no final nada acontece do ponto de vista econômico.

O trágico é que a cultura brasileira não permite muita dedicação à produtividade. E o Pronatec até pode ter sido uma boa ideia, mas não tem funcionado na prática. E nas universidades as pesquisas geram conhecimento que não tem valor de mercado. E pesquisar em busca de lucro é perigoso!!!!! Misturar ciências e negócios gera riscos para as pessoas! É como disse o sociólogo Steve Fuller: " desenvolver pesquisas torna-se um mal necessário e quanto mais necessário, pior é o mal". Isto é, pesquisas precisam ser feitas para o bem das pessoas e não para os interesses capitalistas. Aqui está um dos  pontos de ruptura entre a Educação e o mercado, só para começar.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A Saúde é o bem maior

A Saúde é o bem maior no ranking.

Pode parecer lugar-comum um médico defender a saúde como o bem maior na nossa vida. Mas a saúde é verdadeiramente o bem maior para todos nós!

Na sociedade atual o trabalho está colocado artificialmente como número um no ranking. A idolatria ao trabalho transformou pessoas em "peças" numa engrenagem, sempre prontas a produzirem cada vez mais, sacrificando a própria saúde.

Na sociedade atual o investimento em saúde é baixo e a promoção de saúde perde para todas as atividades geradoras de doenças e desequilíbrios. 

Então estamos na era do avesso. Na era da incoerência. Na era do adoecimento.

Pessoas adoecem porque fumam, porque bebem, porque se alimentam mal e porque são torturadas 8 horas por dia em ambientes de trabalho insalubres que as tratam mal, pagam uma miséria e não agregam um sentido existencial.

A saúde é muda. Por isso, ninguém dá bola para o seu valor. Isso só é notado quando ela é perdida. Então a vida é perdida em seguida.

Sem saúde o resto perde o valor.
Sem saúde ninguém trabalha. Sem saúde, ter dinheiro perde o sentido. Sem saúde física e mental, não existe vida na sua plenitude.

A Saúde é o bem maior em todos rankings.

Por que a sociedade nega essa realidade?